Esconde-esconde

Vladimir Gusev

Vladimir Gusev

Procuro-te
nos seixos
nas brechas
nos grãos.
Não te encontro.
Busco-te
nos ventos
nas nuvens
no escuro.
Não te vejo.
Desisto
e te revelas.
O rosto estampado
no tecido das folhas
oculto nas marcas da grama.
Escondes-te
nos espelhos do orvalho.

METAFÍSICA

Vladimir Kush

Vladimir Kush

Há dias em que me esqueço
do corpo em casa.
Saio desnuda
só de alma vestida.
As formas me atravessam
os ruídos repercutem
toda a luz me cega.
Volto povoada
e feliz.

RAÍZES AÉREAS

 

 

 

 

Claude Monet

Claude Monet

Nasci anêmona
ninfeia nadando
com as raízes à mostra.
O tempo me imobilizou
me radiquei
em terrenos arenosos.
Hoje lanço ganchos
planto estacas
amarro âncoras
algo que me sustente.

Descobri a vontade de Deus
Ele me quer liberta
crescem minhas raízes
aéreas.

Compaixão

Camille Pissaro

Camille Pissaro

Toda dor me rasga
toda sede queima
o abandono ulcera
a multidão me engole.
Sou todos.
Todos os corpos
me cabem.
Sem rosto
arrasto-me.
Nenhum contato
acontece.
Sou múltipla
e carrego nos ombros
a cidade só.

Trocadilhos

Marc Chagall

Marc Chagall

A vida está tão torta

quase caio das bordas

vivo, mas quase morta.

O pensamento se perde

morcego sigo voando

guiada pelos radares.

O mundo

tanto me exaure

que dele já desisti

os ventos é que me levam

para onde devo seguir.

Vou  assim sem vontade

indo, sem querer ir.

SEQUELAS

 

Edvard Munch

Edvard Munch

O amor me machucou

tanto

feriu-me com armas letais

riu-se dos meus sonhos

legou-me sequelas

demais.

Hoje trago arritmias

síndromes de desamor

dores que desconheço

tristeza em todas as estações.

O amor fez com a alegria

confetes e os dispersou.

O amor me assombrou

deixou-me grávida

de medos

perdida em escuros.

.

Na casa vazia

 

 

_jeannette_woitzik

_jeannette_woitzik

A casa é vazia

cobertos os móveis

a poeira se abraça

a solidão assobia

pelas frestas

os fantasmas entediados

olham pelas vidraças

não há quem assombrar.

A Casa Iluminada

M.Costa
M.Costa

Os  cães dormiam

cansados da vigília

as  nuvens corriam

para os braços da montanha

e as sombras

fugiam temendo

a chegada da noite.

A tarde agonizava

sem dor.

Pelas frestas

tu entraste.

Esgueirando-te

na claridade restante.

Eu não te vi

distraída com o adormecer do dia.

Teu brilho atravessou as telhas

coloriu as paredes

e me cegou.

Tateando nos móveis

corri para a porta.

Inevitável!

Tua presença já se instalara

soberana

em minha morada.

O amor em tempos maduros

Ambrose McEvoy

Ambrose McEvoy

“Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus ou foi talvez o Diabo deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.”
(Campo de Flores- Carlos Drummond de Andrade.)

Pois que também tenho um amor.
Maduro, dourado
Como fruto de physalis
Quem mo deu
Foi Deus ou o diabo
Que importa?
Veio pronto.
Embalado em ventos
Numa tarde anunciado.
Veio e ponto.
Eu já tinha desistido
de suspirações
tão desacostumada
estava de acarinhamentos.
E eis que o amor
me aluga.
Muda o lugar de tudo
Ladrilha de orvalho
Os meus dias
Incendeia de pirilampos
as noites.

Eis que tenho um amor
E não sei como cuidar dele.
Amarro-o
Com unhas e dentes
Para que não se desfaça
Amordaço-o
Para que não se gaste em asperezas
Nem se rasgue em frivolidades.
Tenho um amor tardio
Que é só meu
Carrego-o como um fruto,
Filho de longa espera.
Quem o trouxe
O que me importa
é o que me coube
Sou feliz pois tenho um amor
que se enfeita
do tempo que me resta.