Goles

Marc Chagall

Marc Chagall

Basta de alucinações
Não tenho tempo
para embriaguez.
Quero restar sóbria
sem ofender os instantes.
Os anos passam
passaram.
Eu não os vi.
Outros
Gastei-os
com dores fúteis.
Vejo-me
transportando idades
que não vivi.
Da vida quero
apenas goles
lúcidos
a anunciar eternidades.

De tanto querer

Henri Matisse

Henri Matisse

Carrego um querer exausto
De tanto querer.
Ele caminha insone
cobre madrugadas.
Aos gritos
interrompe meus sonhos
Busca
A quem amar.

Entrego-lhe corpos
Rejeita-os
Ofereço-lhe rostos
Renega-os
Invento paixões
Ignora-as.
Carrego um querer louco
De tanto querer
Em vão.

segredos ( muito íntimos)

Paul Cézanne

Paul Cézanne


para Dadá

A tarde segredou-me
Inconfidências
Contou-me, com pudor,
Como as árvores trocam carícias
Enlançando os galhos
Com delicadeza.
Falou-me com rubor
Do cio estridente das cigarras
E do dialeto incompreensível dos insetos.
Ah, a tarde lamentou a visita
Esporádica da lua
e a frustração
De não encontrar estrelas.
E disse-me também
Como são tristes
As tardes da cidade.

Poesia II

René Magritte

René Magritte

Cada dia mais
pertenço-me menos.
Escamas minhas
soltas ao vento.
Fios de meus cabelos
nos galhos das árvores
Espreito traços meus
dispersos na multidão.
Líquida me desfaço
liquifaço-me
úmidos orvalhos.
Cada dia mais
me pertenço menos.
A poesia me enlaça
em seus braços recolhe
o que de mim resta.
Nela eu navego,
naufrago
visito outras esferas.
Espero.

deformidade de asas

René Magritte

René Magritte

Nasci com deformidade de asas
Curtas e desplumadas
Roubam-me o equilíbrio
Mas nunca desisti de voar.
A cada tombo reajo
A toda queda
Insisto
Sei que tudo é
Questão de exercício.