Ultimato

O que ainda tiver

que doer

que doa

que rasgue, dilacere

fira, mutile.

Que a dor

se esbalde,

se embriague

Depois:

Chega!

Basta!

Proibo-a

de me fazer

objeto de seu prazer.

Ray Ceasar

Ray Ceasar

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processo

Mihail Korubin Miho

Quem me roubou
dos olhos
o brilho do verão?
Quem me arrancou
das mãos carícias
recém-nascidas?
Quem lacrou
em meus lábios
o riso farto
infantil?
Quem me deixou
assim
vazante,
estéril
rastejantemente
triste?
Denuncio-o!

antigamentes

Natalie_Shau

Natalie_Shau

havia cofres
para esconder
amores
havia mistérios
a povoar
os dias
havia dor e
desalentos
a me seguir
a vida me rondava
e eu a fugir
vestia espartilhos
apagava arandelas
havia cheiros,sopros
assombros
antigamentes
havia
nada mais há
nadamenos

Assombrações

Ernesto Arrisueno

Ernesto Arrisueno

O assombro de viver.
se me confirma
nas utilidades da vida
não há comando.
Desmentido o já sabido
retrasado o esperado
de mim e em mim
quem é o mandatário?
O mesmo
mesmo nunca se repete.
Onde fica a
morar o aprendizado?

caminho de volta

mar lilás
Tão longo
é o caminho de volta
tão larga e só
a estrada
tardam manhãs e noites
à espera
tanto caminhar
por veredas
inúteis.
Árdua a jornada.
Tão longe é
o caminho de casa.

Polifônicos

Ernesto Arrisueno

Ernesto Arrisueno

Descobri que os ventos
têm sotaques
falam diferentes línguas
eles são poliglotas.
Também tocam
instrumentos
de sopro e de cordas
ah, os ventos são tão
estudados.

Guerreira

Ernesto Arrisueno

Ernesto Arrisueno

Temia a vida
e as armadilhas
temia o amor
e as artimanhas
temia a loucura
e os mistérios.
Temia tanto
que trêmula vivia.
Medo que a vida
a dilacerasse
medo que o amor
a dissolvesse
que a loucura
a seduzisse.
Fugiu da vida
expulsou o amor
domou a loucura.
Vive num território
seguro
protegido
por cercas elétricas
habitado por ninguém.