Esterilidade


Natalie Shau

Dói-me a dor
mutilada
dos seios murchos
não verte leite
no peito aberto
não jorra sangue
no corpo estéril
não brota nada
Desossada
aos poucos
fibras e músculos
não sustentam
membros soltos
e quem irá mover
os cordões frouxos.
os olhos secos
como regá-los
não sei.

A dor se me esgotou.

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tanto querer

Quis-te tanto
um querer imaterial
sendo encanto
temia que se partisse
temia que me sumisse
Quis=te com tal delicadeza
que tocar nesse quer
nunca ousei
Cada dia mais esvaindo-me
em doçuras raras
saboreando extintas especiarias
Quis-te tanto
e em abandono

esse querer
se desfez
em neblina
chuva
em agonia.
Querer
esse querer
eu não queria.

Dotes

Paschoal Chôve

Desposarias minha solidão?
Celebração em autos e estações
Dote de brotos e grãos
Pedregulhos anônimos
trazidos de remotas eras.
desposarias minha mudez
lacrada no mais longínquo
abandono?
Ousarias?
Ousarás?

Poema Póstumo

Devolve-me ao mar

Meu corpo exausto

anseia por respirar

No fundo, bem no fundo

do oceano guardei as escamas

que me cobrirão, um dia

quando eu me despir

da forma humana.

Dentro de corais

estão as mágicas algas

que me alimentarão

se eu precisar.

Peixes fosforescentes

guardam as entradas

dos meus caminhos

á beira-mar.

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