Antiguidades

Marc Chagall

Marc Chagall

Tão velha era a dor
com sua roupa puída
ossos à mostra
joanetes à vista
rugas verticais.
Tão antigo o amor
espinho fincado
no centro do peito
seios abertos
ferida esgarçada.
Um dia a dor
caducou de velhice
e o amor esgotado
sem dar satisfação
acabou.
Fiquei vazia
vagas abertas
para receber a alegria.

Embriaguez

Pierre Auguste Renoir

Pierre Auguste Renoir

Feri meus olhos
na beleza.
Curei-os
com luzes
e águas
cristalinas.
Até hoje
eles me denunciam
revelam
minha alma
embriagada

Gangorras

arlequim
Provei dos frutos o mais doce
engoli o travo e o fel
bebi das flores o néctar
a sede matei com vinagre
desci aos abismos do mundo
visitei a morte sem máscara
a vida emprestou-me asas
voei aos píncaros distantes.
Nadei sobre o mar
mergulhei em mundos escuros
morri e nasci
tantas vezes.
Amei só como um louco
é capaz
aprendi a viver sem amar.
Tudo me foi dado
a tudo agradeci.
assim saltando
gangorras vivi
ainda vivo.
Nada mais temo.

O mar me agasalha

Claude Monet

Claude Monet

Não sou da terra
o mar tomado de contrações
expulsou-me de seu ventre escuro.
Nadei
na companhia dos cardumes
e das algas.
Embalada pelas ondas
cheguei à praia.
Meus pulmões acostumados
aos ritmos submarinos
estranhou os ares rarefeitos.
Cresci,aprendi a andar
mas até hoje
o mar me chama
clamo por seu agasalho
íntima sou
dos escuros mundos que abriga.

maratona

Georges Seurat

Georges Seurat

E assim eu vou indo
aos trancos e barrancos
ao sabor das nuvens
no ritmo das marés
impulsionada por ventos.
Vou indo
no contrafluxo
em férreos trilhos
até o anoitecer.

féGabriel Dante Rossetti

Uma fé inquebrantável me guia.
Descobri-me mais forte que a vida,
mais resistente que a morte.
As dores escorrem na pele
e se evaporam.
Trago o corpo marcado por cicatrizes
e me orgulho.
Elas não me envelhecem,
me embelezam.

Temporais

Alessander Jansson

Alessander Jansson

Armei-me contra os temporais
para os pingos de dor
abri meu guarda-chuva
raios e trovões
recebo-os com minha capa
impermeável
às urdiduras do tempo.
estou blindada para tempestades
asas luminosass
me defendem
anjos me guiam
e eu vou levada
pelas ventanias.

Tempestades

Henri-Matisse

Henri-Matisse

Mergulha em meu ventre
Enterra a cabeça em meus seios
Cospe em minha boca
Essa ternura sarracena
Recolhe-me nos teus olhos
Faz-me prisioneira
Leva-me nas marés
Em teu barco torto de idas
Prende-me ao mastro
Deixa que ventos e temporais me açoitem
Antes que eu encontre alívio
Em teu corpo vestido de maresias.
Vem te dissolve em mim.