Fantasias

Jean Baptiste Renoir

Jean Baptiste Renoir

Guardo em mim
uma colcha de esperas.
Um querer feito
de silêncios
alimentado de orvalhos.
Guardo nos bolsos
retalhos de manhãs
que recolho
na vã ilusão
de viver um dia.
Carrego na alma
palavras inaudíveis
que talvez
nunca sejam ditas.
Trago nas mãos
gestos tão ternos
impossíveis
de serem traduzidos.

Sedução

Sophie-Anderson

Sophie-Anderson

Quero que tu me dispas.
Arranques a solidão
que grudou em mim
minha armadura.
Quero que não desistas
e arranhes as máscaras
de silêncio
que se colaram em mim
feito queimadura.

Preciso ser vista.

À toa, à toa

Vladimir Gusev

Vladimir Gusev

Quero todo o tempo
para gastá-lo
inutilmente.
Descobrir
onde nasce o riso
como a dor chega
quem inventa
o amor.
Perseguirei
a serenidade
do que nasce
mergulharei
na imobilidade
do que parte.
Quero não ter
compromissos.

Sonhos

Vladimir Kush

Vladimir Kush

Sonhei um amor
que transbordasse.
Ignorasse margens
desafiasse os ventos
e risse da lucidez
dos homens.
Quis um amor
sem limites
que cortasse
como navalha
sangrasse como um cordeiro.
Um sentimento
que me lançasse nos abismos
e me erguesse ao infinito.
Sonhei,
às vezes,
os sonhos são tão reais.

Deserto

Salvador Dali

Salvador Dali

Eu não sabia
que dentro mim
cabia um deserto.
Escaldante
ermo e gélido.
Nem uma semente brota
nem uma ave pousa
nem um gota cai.
Só ventos
e tempestades de areia
o povoam.
Nas madrugadas
ouço uivos de dor
frases de amor
são só fantasmas.

Fidelidade

Edward Burne Jones

Edward Burne Jones

Tu me possuis
Como se eu te pertencesse
Como o cão
Reconhece o dono
Eu me rendo ao teu toque
Parte tua.
Como a rocha cede
à insistência da água
Eu te sigo submissa
Pelos caminhos que traças
Em minha pele.
Com que intimidade
me penetras
em busca de tua alma.

Na rota dos pássaros

VOANDOChristian Schloe
A dor me desabita.
Há séculos
tendo seu rosto
a assombrar
meus amanheceres
ela me deserta.
Deixa-me inválida
para pertencimentos.
A desobediência da dor
liberta-me das amarras.
Sou livre para
cruzar a rota
dos pássaros.

Chovem mares

LiliRoze

LiliRoze

Quando o teu desejo
toca o meu desejo
meu corpo se rende
ao teu toque.
Quando o teu desejo
se confunde com o meu
chovem mares
Eu sorrio líquida
e me desfaço
em teus braços.

Pergaminhos

Arthur Hughes

Arthur Hughes


Como quem manuseia
antigos pergaminhos
visito tua alma.
Labirintos
escombros,
civilizações perdidas
nela impressas
enrugando as páginas.
Com quem navega
antigas embargacações
solto as velas
ao sabor dos ventos
e me deixo guiar
pelo sopro sutil
da tua alma eterna