Junta os trastes
arruma as trouxas
esvazia os armários
desocupa o espaço.
Vai
sai
abandona-me de vez.
Um corpo
não pode
ser habitado por
dois espectros.
Deixa-me
Nega-me
ignora-me
ordeno-te.
Sai de mim
para sempre
não voltes
jamais.
Cansei
de tuas ladainhas
Tristezas
demais.
Amo os coxos
os estropiados
os vesgos
os aleijados.
Amo os seres
que caminham
pelas calçadas
os cegos
que tateiam
a estrada.
Amo os dissidentes
os resistentes
os marginais.
Amo aqueles
que na vida
comem pelas beiradas.
Eu a vi
ela me olhou
tão bela
em processo de mutação
Amêndoas nos olhos
jeito infantil
de ser
diferente de mim.
O que nos distancia?
Um cromossomo a mais?
De jeito nenhum.
Nos olhamos
na cumplicidade
nos descobrimos
tão iguais.
Deito-me ao teu lado
lânguida.
Observo o silêncio
que nos une.
Lambes minhas mãos
e meu rosto
ritual
ancestral e terno.
Perco-me em teus azuis
celestiais
e acompanho-te a
capturar os instantes
gatamente.
Invento
habilidades
para guardar
a alegria.
Semeio canteiros
desaprendo
ressentimentos.
Crio um território
livre de ervas daninhas.
Abrigo espaços
para que ela
me habite.