Dediquei-me
ao silêncio.
Desaprendi
humanas linguagens.
Falácias
ironias
insultos
olvidei.
Nesse intermezzo
ouvi
vozes inauditas.
Falavam os pássaros
falavam insetos
falavam todos os animais.
E para surpresa minha
eu os compreendia.
São tão doces
as suas vozes.
A cidade deserta
se riu de mim.
Eu a confabular
com os ventos
a recolher tristezas
nas esquinas.
Indaguei às nuvens
se haviam visto
a alegria.
Cigarras e bem-te-vis
me responderam.
A cidade silenciada
se riu de mim.
E eu segui
a catar abandonos.
Deita em meu copo
mais um gole
sela minha boca
com um beijo
toca-me
com ventura
por instantes
afaga meus cabelos
e em silêncio
mente-me.
Urge que eu creia
por um átimo
em teus gestos.
Lá
aonde as sombras correm
a dor desbota as cores
os medos andam soltos
É lá
que eu me dispo
da ternura
apago a delicadeza
e enquanto
o dia pálido
agoniza
eu me disperso
a brincar com a morte.
Ao sul
bem ao sul
do país
vive um farol.
Cercado por ventos
que fazem curvas
e redemoinham.
Lá as águas
são gélidas
e os pescadores
velhos.
Ao sul
mais ao sul
mora um farol
que me espera.
Diz-me
tu que sabes
das cousas
como drenar
a ternura
que verte
incessantemente
dos poros?
Como armazenar
a esperança
que se desnuda
ante as manhãs?
Como ativar
um coração
híbrido
que naufragou?
Ah!Diz-me tu
que sabes das cousas.
Saber-te
me fez
permanecer.
Percorrer-te
território
inexplorado
fez de mim
peregrino.
Perder-te
deu-me a visão
do infinto.
Saber-me
só
e sempre
fez-me
visitante.