Trapos vestem
a carne exposta
a solidão brota
desvãos
no vago do peito
ao amanhecer
crateras lunares
germinam no ventre.
Tudo é árido
estéril
O ar dilacera
o frio queima
a dor derrete
esperanças.
Segredo
Ausência
Ausentei-me de mim
parti.
Vislumbrei ausências
maiores
voltei.
O tédio cobrira de musgo
as paredes
os quartos encharcaram-se
de úmidas estações
O mofo enchia as taças
talheres despratearam-se
em tudo reinava
um fatídico abandono
A ausência tornara-se
líquida e gotejava.
Agasalhei-me
e entrei.
com paixão
A casa que me habita
A casa que me habita
é nua de excessos.
Expulsei os escuros
estrangulei os rumores
deixei-a
reinada por silêncios
A casa que me habita
não admite forasteiros
grossos cadeados
lacram as portas
duplas venezianas
cerram as janelas.
Foi erigida num lugar ermo
sem permissão
a vizinhanças.
Lá brotam sementes
trazidas pelos ventos
nascem pássaros nas gramas
porque toda ela é um ninho.
De madrugada cigarras e lagartixas
grilos e bem-te-vis
invadem a casa
que me habita
a quebrar o jejum
de vozes.









